Cheguei em Cumbica com uma leve garoa, fiz o check-in e sentei no sofá para aguardar o embarque. Seria uma experiência maravilhosa que fui convidado para conhecer uma vinícola no Chile, e como sou apreciador de vinhos, juntaria o útil ao agradável. Depois do cinto travado e da orientação de segurança, o avião taxiou no aeroporto e pegou a pista para decolagem.
Respirei fundo, muito aliviado após a tensão e o avião
ganhou os céus entre as nuvens, talvez já estivesse fora da cidade quando
ouvimos um estouro, o comandante avisou no alto falante que era um pequeno
problema na turbina esquerda, mas estava tudo sob controle. Eu olhei pela janela e vi a turbina esquerda
pegando fogo, achei estranho isso estar sob controle, mas o comandante falou
que iriamos voltar ao aeroporto para um pequeno reparo. Percebi uma tensão no
ar, as aeromoças se deslocando de uma lado para outro e o avião fazendo a
volta, e logo após o comandante pedindo calma que tudo seria resolvido, mas o
trem de pouso não estava abrindo. Senti meu coração disparar, percebi que todos
estavam tensos, algumas mulheres chorando desesperadas, e o avião sofrendo
turbulência.
Imaginei como o avião poderia aterrissar sem o trem de
pouso, e ai bateu o desespero em mim também, imaginei que eu morreria naquele
momento, longe da família, sem me preparar, ou seja sem poder me defender, e
senti que seria minha ultima vez nesta vida, então o comandante pedia para
todos ficarem nos seus bancos com o cinto de segurança afivelado, que ele iria
pousar.
O avião desceu, e no último momento abriu o trem de
´pouso e correu na pista, e a sua volta os caminhões de bombeiro com a sirene
ligada, foram momentos tensos que não da para pensar muito, e quando me dei em
mim, as portas de emergência se abriram e a rampa inflável automática e todos
eram orientados a descer escorregando até chegar ao chão, e em seguida se
distanciar do avião, afinal os tanques de combustível estavam cheios.
Depois de pegar minha pequena mala e desistir de pegar
outro avião fui para casa pensando que aquela poderia ter sido minha última
viagem, e nem dá para pensar muito.
Peguei um uber em direção a casa e me lembrei da
tensão e emoção de minha primeira comunhão, lembrei também da primeira vez que
montei numa bicicleta e sai pedalando, lembrei quando comecei fazer as aulas de
volante, o instrutor parou no posto para abastecer e perguntou se eu sabia
dirigir, falei que sim, então ele me entregou o volante e eu sai do posto de
gasolina em direção a Radial Leste, com muito trânsito, as pernas tremendo,
também lembrei do meu coração batendo forte quando dei o primeiro beijo na
minha primeira namorada, me veio a mente quando fui com colegas na Cidade
Universitária comprar minha primeira moto, e sem saber pilotar fui do Brás até
Vila Mariana montado nela. Lembrava de muitas “primeira vez” que passei, e lembrava da última vez que
tinha sofrido naquele dia e que por pouco nem teria como lembrar, nem pensar.
Viver é como representar uma peça de teatro todo dia,
a gente sabendo o roteiro e vivenciando as novas situações que acontecem, viver
não é conhecer a primeira vez e nem a última vez, viver e vivenciar outra e
outra Vez.