terça-feira, 27 de outubro de 2026

Última Vez

 Cheguei em Cumbica com uma leve garoa, fiz o check-in e sentei no sofá para aguardar o embarque. Seria uma experiência maravilhosa que fui convidado para conhecer uma vinícola no Chile, e como sou apreciador de vinhos, juntaria o útil ao agradável. Depois do cinto travado e da orientação de segurança, o avião taxiou no aeroporto e pegou a pista para decolagem.

Respirei fundo, muito aliviado após a tensão e o avião ganhou os céus entre as nuvens, talvez já estivesse fora da cidade quando ouvimos um estouro, o comandante avisou no alto falante que era um pequeno problema na turbina esquerda, mas estava tudo sob controle.  Eu olhei pela janela e vi a turbina esquerda pegando fogo, achei estranho isso estar sob controle, mas o comandante falou que iriamos voltar ao aeroporto para um pequeno reparo. Percebi uma tensão no ar, as aeromoças se deslocando de uma lado para outro e o avião fazendo a volta, e logo após o comandante pedindo calma que tudo seria resolvido, mas o trem de pouso não estava abrindo. Senti meu coração disparar, percebi que todos estavam tensos, algumas mulheres chorando desesperadas, e o avião sofrendo turbulência.

Imaginei como o avião poderia aterrissar sem o trem de pouso, e ai bateu o desespero em mim também, imaginei que eu morreria naquele momento, longe da família, sem me preparar, ou seja sem poder me defender, e senti que seria minha ultima vez nesta vida, então o comandante pedia para todos ficarem nos seus bancos com o cinto de segurança afivelado, que ele iria pousar.

O avião desceu, e no último momento abriu o trem de ´pouso e correu na pista, e a sua volta os caminhões de bombeiro com a sirene ligada, foram momentos tensos que não da para pensar muito, e quando me dei em mim, as portas de emergência se abriram e a rampa inflável automática e todos eram orientados a descer escorregando até chegar ao chão, e em seguida se distanciar do avião, afinal os tanques de combustível estavam cheios.

Depois de pegar minha pequena mala e desistir de pegar outro avião fui para casa pensando que aquela poderia ter sido minha última viagem, e nem dá para pensar muito.

Peguei um uber em direção a casa e me lembrei da tensão e emoção de minha primeira comunhão, lembrei também da primeira vez que montei numa bicicleta e sai pedalando, lembrei quando comecei fazer as aulas de volante, o instrutor parou no posto para abastecer e perguntou se eu sabia dirigir, falei que sim, então ele me entregou o volante e eu sai do posto de gasolina em direção a Radial Leste, com muito trânsito, as pernas tremendo, também lembrei do meu coração batendo forte quando dei o primeiro beijo na minha primeira namorada, me veio a mente quando fui com colegas na Cidade Universitária comprar minha primeira moto, e sem saber pilotar fui do Brás até Vila Mariana montado nela. Lembrava de muitas “primeira  vez” que passei, e lembrava da última vez que tinha sofrido naquele dia e que por pouco nem teria como lembrar, nem pensar.

Viver é como representar uma peça de teatro todo dia, a gente sabendo o roteiro e vivenciando as novas situações que acontecem, viver não é conhecer a primeira vez e nem a última vez, viver e vivenciar outra e outra Vez.

 

 

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