terça-feira, 11 de maio de 2021

O Antiquário

 No aniversário de 34 anos da minha filha mais nova, Mariana, ela alugou um sítio em Ibiúna, interior de São Paulo, para passarmos o fim de semana comemorando também o dia das mães.

Ao chegarmos no local não tive a melhor impressão, a aparência era de uma casa velha com móveis velhos, porém observando melhor vi que a casa era a maior parte feita de material de demolição, de muito bom gosto e os móveis e decoração eram todos antiguidades, alguns do século XIX e outros do início do século XX.

Muitas vidraças dão visão para o verde da mata atlântica e para o pasto, onde vacas Jersey pastam tranquilamente acompanhadas pelos quero-queros, e no céu a revoada de pombos é constante.

O que muito me intrigou foram várias rodas de pedra, algumas com 1, 2 e até 3 metros de diâmetro e largura de até uns 30 centímetros enfileiradas junto de uma grande mesa de pic-nic com bancos também de pedra pesados, o que me arremeteu a Stonehenge na Inglaterra, com todos os seus mistérios.

Também ferramentas agrícolas antigas, verdadeiras peças de museu, e vasos e urnas de cerâmica, postes em ferro que sustentavam os antigos lampiões à gás, e vários galpões com serras imensas e muita madeira de demolição empilhada.

Nas arvores próximas da casa saguis de tufo branco mostravam todas sua curiosidade com os visitantes, e tucanos-de-bico-preto saltitavam de galho em galho desviando nossa atenção das borboletas azuis de rara beleza.

Na primeira noite tivemos comida japonesa, guioza de legumes e shimeji na entrada e okinawa soba no jantar, ou seja a guioza é uma espécie de ravioli de legumes e o okinawa soba é um macarrão japonês servido com costela de porco cozida com shoyu e se come acompanhado de gengibre ralado e em conserva que é o beni shoga, e de sobremesa manjar de coco com calda de ameixa.

No sábado de almoço tivemos risoto de shitake com filé-mignon e no jantar os petiscos de castanha de caju, amêndoas, pistache e o tradicional pão, queijo e vinho.

No domingo aconteceu a coroação das rainhas, a mãe e a aniversariante, e depois o pic-nic com toalha xadrez do lado de fora da casa, com pães, pães de queijo e acompanhamentos levados em cestas apropriadas, e no almoço, comemos hambúrguer de costela bovina, minha especialidade de fabricação própria, com direitos a todos os acompanhamentos devidos, e na hora de ir embora, aconteceu o parabéns à você com bolo de cookies.

Na sala uma mesa de pebolim em ferro maciço traz um toque nostálgico e uma escada de madeira nobre de uma antiga mansão de São Paulo completa o clima de um mundo que não existe mais.

Mas voltando à ,minha intriga com relação as rodas de pedra, perguntei para o caseiro o que aquilo significava, e ele explicou que o antigo proprietário, pai do atual, era antiquário e viajava todo o país comprando antiguidades, e aquelas rodas eram de moinho de cereais que se usava antigamente.

Refletindo, pensei, como a vida é efêmera, um homem que se dedicou a vida toda convivendo com a história de pessoas, valorizando e admirando seus bens, depois de dez anos de sua morte ainda podemos sentir sua presença naquilo que deixou.

Para nós ficou a gostosa lembrança de um fim de semana maravilhoso, dando parabéns à aniversariante Mariana, e desejando felicidades às mães, e como disse o seu Dorival, às futuras mães também.

sábado, 17 de abril de 2021

Observar, Insistir, Constatar

 A pré-adolescente vê na televisão uma reportagem sobre a morte do príncipe Philip e a situação da família real, e usando uma força de expressão, fala para a mãe que desconfia que a rainha Elizabete e o Sílvio Santos são a Eva e o Adão.

A mãe pergunta o porque dessa observação, e ela diz que são muito velhos e nunca morrem, e pergunta se quando a mãe nasceu eles já eram velhos.  A mãe diz que sim, já os conheceu velhos.

Mas a mãe diz que não se pode avaliar por isso, que nem tudo que parece ser, é na verdade, e lembra a filha que o Lula ganhou um triplex e nem por isso em outra encarnação foi Judas que  ganhou trinta moedas, diz também que viu o Dr. Drauzio Varella ensinando como se lava as mãos na pandemia, e nem por isso é reencarnação de Pilatos, fala também que Moisés morreu há muito tempo e a pandemia é uma praga da China, não do Egito.

Mas fala para a filha que sempre deve observar, insistir e constatar, e somente assim o ser humano faz descobertas e evolui.  Mas pede para ela ficar atenta, pois se a rainha Elizabete e Sílvio Santos trepados em uma macieira forem picados por uma cobra, então pode ter certeza: foram Eva e Adão!

sexta-feira, 5 de março de 2021

Estória 99,9 % Verídica

 Nessa época de pandemia é comum encontrarmos produtos de limpeza no supermercado com os dizeres "99,9 % eficaz na eliminação de bactérias e fungos"

Então faço questão de dizer que esta estória é 99,9 % verídica, e somente 0,01% é fictícia, para poder fazer o arremate artístico da crônica.

Também é bom destacar que aqui não existe a intenção de fazer humor ácido, e sabemos que pessoas inteligentes as vezes fazem deboche de suas próprias desgraças, e tem mais, na espiritualidade quem disse que uma deficiência física é desgraça?

Então vamos à estória, que começa quando duas amigas que conversam no banco do ônibus, e uma delas fala rindo que um dia quando saiu do serviço, virando a esquina encontrou uma sacola de shopping cheia de alguma coisa, então ela parou, abriu a sacola e viu que eram vários sapatos masculinos sem uso, tirou um da sacola e viu que era o mesmo número do seu marido.

Toda feliz ligou para seu marido contando a novidade, estava levando-lhe vários presentes, mas o destino reserva surpresas, e quando chegou em casa tirando os sapatos da sacola viu que todos eram novos, sem uso, porém todos eram somente do pé direito.  Entre gargalhadas e sem entender nada, o marido lembrou que tinha um primo no Maranhão que não tinha uma perna, mas não conseguia lembrar que perna faltava.

Ligou imediatamente para o primo que confirmou que tinha somente a perna direita, e por dupla coincidência, o pé era a mesma numeração dos sapatos. Tudo resolvido, os sapatos seriam despachados pelo correio e seriam aproveitados, bem aproveitados.  

Nesse momento a moça sente um toque no ombro, e assustada olha de esguelha para trás, onde um senhor que tinha ouvido a estória pergunta se por acaso o primo do Maranhão não teria ganhado um skate em algum momento de sua vida, pois ele tinha um carrinho de rolimã, mas sonhava com um skate, e precisava dele para se locomover porque não tinha as duas pernas.


segunda-feira, 1 de fevereiro de 2021

Hoje é o casamento da Adriana e do Rafael

 Tudo começou através de um aplicativo, mas não foi por acaso.  Vamos lembrar que os dois pegaram o bonde errado, e vocês sabem que Deus tem esses caprichos, faz as pessoas pegarem o bonde errado, para depois se encontrarem na estação certa.

Quando marcaram o primeiro encontro, que era num restaurante, ela fez questão de dizer que estava com uma roupa listrada, para facilitar o reconhecimento, e ele para ter certeza que não erraria, perguntou o tamanho das listras, e foi munido de uma régua para fazer a medição.

Ela como é muito objetiva, levou um papel com as instruções para ver se ele seria aprovado no teste. As instruções eram de Vinícius de Morais, e ela leu em voz alta:

"Para se viver um grande amor, primeiro é preciso sagrar-se cavalheiro,

E ser de sua dama por inteiro, seja lá como for 

Há de fazer do corpo uma morada

Onde clausure-se a mulher amada

E postar-se de fora com uma espada

Para se viver um grande amor"

Ele ficou feliz! era como se tivesse passado no vestibular de medicina da Santa Casa, com a nota máxima, isso era moleza, ele até tinha sua armadura de um material mais forte que o aço, uma armadura de amor, era só vestir e defender a dama.

Mas ele também tinha suas exigências, e então sacou um papel com as instruções de Elba Ramalho, para ver se ela era aprovada, e leu em voz alta:

"Para descrever uma mulher

Não é do jeito que quiser

Primeiro tem que ser sensível

Se não é impossível

Quem ver, por fora, não vai ver por dentro

o que ela é,

É um risco tentar resumir 

Mulher

Que a divina natureza fez surgir

A mais linda obra prima que alguém já viu

Assim nasceu a mulher nas mãos de Deus...

Por mais que o homem possa ter,

Sem ela não dá pra viver

As vezes pede proteção,

Pra ter um pouco de atenção

Se fingi ser tão frágil mas, domina quem quiser

Pois ninguém pode definir

Mulher...

Mulher..."

Então Adriana disse feliz:-sou eu! como me descreveram tão bem!

E assim aconteceu o início do namoro, os sentimentos foram tão fortes que em pouco tempo resolveram se casar, mas Deus como diz Chico Buarque, é um cara gozador, e permitiu a vinda da pandemia, e a pandemia foi atrasando o casamento, marcavam a data e algo impedia.

Neste meio tempo foram morar no mesmo teto, e ai o Rafael fez um curso com Jamie Oliver, para aprender fazer risoto de abóbora e sobremesa gelada, também aprendeu a gostar de gatos, e conviver com eles, aprendeu a apreciar o vinho verde, e a Adriana aprendeu... a ser feliz!

Mas finalmente chegou o dia do casamento, não era como queriam, teriam que se privar da presença de amigos tão queridos, e os pais, irmãos e cunhados tiveram que fazer exame de Covid antes, para ver se todos estavam bem, e com todos os cuidados estamos aqui neste lugar maravilhoso para comemorar tão linda data.

Os pais, irmãos e cunhados, só desejam a felicidade dos noivos, e como é um casamento real, podemos dizer: Vila longa aos noivos!





domingo, 10 de janeiro de 2021

Bocomoco

Não me perguntem porque acordei com esta palavra na cabeça, Bocomoco, que significa brega, cafona, fora de moda, careta, ultrapassado e dégodé, que também é uma palavra bocomoco. 

Nos anos 70 e 80 tinha um comercial do guaraná Antárctica onde um personagem ao identificar uma pessoa ultrapassada, apontava com o dedo e gritava bocomoco.  O personagem dizia que o único antídoto ao bocomoco, seria tomar o verdadeiro guaraná brasileiro. Caso queira ver o comercial acesse o You Tube.

Em 1999 a  Sukita também lançou um comercial que uma jovem entrava no elevador tomando uma Sukita com canudinho, e um galanteador para puxar conversa perguntou se a Sukita estava gostosa e quando a jovem disse que sim, ele perguntou se ela era nova no prédio, então ela disse que sim e pediu para ele apertar o botão de seu andar, chamando-o de tio.  Sua cara caiu no chão sentindo ser chamado de velho.

Num segundo episódio, o galanteador percebe que está acontecendo uma festinha de jovens no andar de cima, então se arruma, coloca um perfume bucal e vai bater na porta.  Diz que percebeu que estava acontecendo uma festinha, com intuito de ser convidado, mas a moça mais que depressa ´pergunta se o barulho o acordou, pede desculpas e diz que vai abaixar o som fechando a porta na sua cara. Novamente se sente ser chamado de velho que dorme cedo. Estes comerciais da Sukita também podemos ver no You Tube.

Em 1982 Ary Toledo e Viana Júnior fazendo um comercial da Vimave, andavam na estrada debochando dos carros quebrados falando a frase "Pois é!" até que o carro deles também quebrou, então foram na Vimave comprar um carro novo.  Até hoje, 39 anos depois a palavra "pois é!" é designação de carro velho. Também veja esta  no You Tube.

Comerciais que são verdadeiras obras de arte e marcaram época, ideias simples e inteligentes!

A Pandemia

 O homem neste planeta sempre encontrou obstáculos para a sobrevivência, quer para se proteger dos fenômenos naturais, clima, catástrofes, quer para se alimentar, plantando e coletando vegetais ou então criando ou caçando animais.

Durante séculos o homem lutou para sobreviver, e devido sua natureza frágil, sempre teve de viver em grupos, em sociedade, o que propicia epidemias e pandemias.

A falta de saneamento destruiu cidades e povoados e só com higiene e cuidados o ser humano pode se proteger de doenças, pragas, epidemias e pandemias.

Durante séculos o homem sofreu com pragas e pestes, e se não bastasse isso ainda permitiu a escravidão, as guerras mundiais ou de região, as guerras ditas santas, o holocausto e os preconceitos que até hoje nos torturam.

Nossa geração conheceu uma pandemia de um vírus que é fácil de combater, basta água e sabão e álcool para destrui-lo, mas para produção de uma vacina para evitá-lo temos que nos conformar com políticos que só sabem fazer política, não sabem usar a mais poderosa arma que o ser humano tem que é o amor.

O que nos resta? Só o sofrimento de vermos nossos semelhantes sucumbirem e nos cuidarmos e nos protegermos para passarmos por mais esta etapa de desenvolvimento da humanidade.

terça-feira, 8 de dezembro de 2020

Mistério no Mosteiro

Novamente ele entrou no mosteiro que sempre que passava em frente não deixava de entrar, sentia imenso prazer em contemplar a imagem de Cristo à direita do altar e rezar um pai nosso.

O frescor e silêncio do ambiente contrastavam com o calor e o barulho da rua e o cheiro de vela queimada e das flores completavam o clima de paz.

A construção do mosteiro começou em 1910 e terminou em 1922 e abriga os monges beneditinos que seguem o lema: orar, trabalhar e ler, e realizam o oficio divino em rito monástico e a missa em rito romano, ambos com canto gregoriano.

Normalmente ele ficava no fundo do mosteiro e as vezes sentava no último banco, mas agora estava com vontade de explorar o ambiente observando os ladrilhos hidráulicos de linda decoração, e foi caminhando em direção ao altar parando em cada imagem que via ou em detalhes da arquitetura.

Uma pesada porta estava ligeiramente aberta, e a curiosidade lhe perguntava se não seria ali que iria para o subsolo do mosteiro, lugar que raríssimas pessoas têm acesso, e a tentação fê-lo abrir a porta o suficiente para passar e entrou, se alguém aparecesse naquela hora ele diria que estava procurando um monge para pedir alguma orientação e acabou se  perdendo.

Uma escada pouco iluminada descia em caracol, e andando nas pontas dos pés foi explorando o local até chegar numa sala onde um monge com uma pá na mão colocava um pequeno baú num buraco onde faltava a laje do piso.  Então ele ficou observando a cena imaginando o que o monge estaria enterrando, seria um tesouro?.

Terminado o trabalho o monge com dificuldade colocou a pesada laje no lugar e pisou em cima acertando algum pequeno desnível Nesse momento o monge percebeu que estava sendo observado e olhou para o homem e sorriu, e este ficou calado não sabendo o que falar, mas o monge quebrou o gelo e disse que estava enterrando um grande tesouro, e já que ele tinha visto foi lhe explicando que aquele baú continha cartas de um grande amor do passado. Explicou quer tinha nascido de um parto difícil e por pouco não morreu, e sua mãe como muitas outras  mães fazem, fez uma promessa que o filho seria um monge para servir à Deus, mas na adolescência conheceu um grande amor, e como o destino não permitiu casarem-se, ela casou com outro e pouco tempo depois morreu num acidente de carro.

Então ele estava ali enterrando as cartas de amor, porque sabia que um dia seria enterrado no mosteiro, e tinha esperanças de numa outra vida encontrar a amada, e se lhe fosse dado o esquecimento desta vida passada, teria ali um mapa para poder procurar seu amor eterno.

O homem ouviu calado e disse que a vida é assim mesmo, devemos ter fé nos desígnios de Deus e que ele mesmo toda vez que rezava o pai nosso em frente a imagem de Cristo, Lhe pedia que não Lhe desse o que ele queria, e sempre Lhe desse o que fosse melhor para ele.

Sorrindo despediram-se e cada um continuou seu caminho.