sexta-feira, 4 de março de 2022

A boneca

A menina com 12 anos se sente adulta, faz pesquisa no Google, é inteligente e criativa, mas é surpreendida pela mãe que chega do trabalho, brincando com uma boneca.

A mãe pergunta como ela está brincando, e ela responde que não está brincando com a boneca, está criando uma estória onde a boneca é sobrinha dela.

Quando a mãe entra no banheiro, a boneca olha para a menina e fala:- não se preocupe, sua mãe quando era pequena também brincava com boneca, será que ela se esqueceu?

A menina surpresa falou:- mas você esta falando comigo?

A boneca disse:-sim, sempre falei com você e você fala comigo, só agora você reparou?

A boneca disse que Deus criou as bonecas para que o ser humano possa sonhar e vivenciar situações onde ele, ser humano, tem domínio da situação e se sente como um próprio deus.

Disse também que sua mãe quando era pequena brincava com bonecas, com certeza não tão bonitas como as de hoje, talvez bonecas de pano, ou uma espiga de milho ou talvez até um osso de boi, mas não importa, o efeito é o mesmo.

Então a boneca disse:-Psiu! sua mãe esta saindo do banheiro, e se você quer ver ela sorrir feliz, diga para ela que eu, a sua boneca, amo ela, e é para ela não ficar com ciúmes porque você é a boneca dela.

terça-feira, 22 de fevereiro de 2022

Meus ouvidos doeram

-Ai vareia! , disse a voz feminina.

Captei esta frase que  me doeram os ouvidos.

Lembrei daquele humorista sem humor que fazia graça para incultos, mas agora era um casal de namorados que estavam se engraçando. 

Então ele falou que tinha ido no banheiro soltar um barro e ela riu muito, acho que ele não tinha muita sensibilidade para paquerar uma mulher.

Mas ele disse:- A gente podia ir num hotelzinho né?

E ela respondeu:- Demorô!

Agora ela passou a mão no estômago e falou: -Eu to com a ursa meio dolorida, acho que é as birita que tomei, e a dor vem até o imbigo.

Ele falou que um dia também ficou com uma zoeira nos ouvido por causa da cachaça.

Mas não tinha pobrema porque tudo passa na vida,

Ela disse que ficou com dor de cabeça quando foi no cabererero, mas é melhor poder ir no cabererero do que ser mindigo e não ter dinheiro.

Ele falou que não pode ter priguiça, tem que trabalhar que a grana não cai do céu.

Nessa altura meus ouvidos doiam mais, e quando o casal se levantou do banco do onigus (op´s, fui contagiado) e estavam esquecendo uma sacola de supermercado no banco, eu muito maldoso falei:- oi! vocês estão esquecendo uma sacolinha, deve ser o galfo e a malmita.

Então ela riu e falou:- não é não, é a chalchicha que compramo agora mesmo, se eu fosse indiota de esquecer o galfo e a malmita, não ia poder por a cabeça no trabisseiro e dormi em pais.




sábado, 19 de fevereiro de 2022

A sortuda

Ela nunca jogava na Loteria, nem na Mega Sena, nem em jogo nenhum, na verdade não acreditava em jogos de azar, mas naquele dia teve a tentação e comprou uma Raspadinha.

Andando com as colegas raspou pela primeira vez e apareceu o valor de R$ 1.000,00 , então ficou super feliz e raspou a segunda vez aparecendo novamente R$ 1.000,00 , nunca imaginou que era tão fácil, e rindo sozinha raspou a terceira vez vendo um prêmio de R$ 50.000,00.  Explodiu de alegria e voltou correndo para a lotérica para receber o prêmio com as colegas atrás gritando para que esperasse.  Com dificuldade uma colega lhe explicou que só ganha quem acha os três valores iguais, ou seja, ela não tinha ganho nada.

Foi uma decepção total, ficou até envergonhada, mas uma colega lhe disse que a vida é assim mesmo, e contou que um dia foi na churrascaria com o marido e percebeu que os garçons passavam toda hora com o espeto de carne e não paravam em sua mesa, então foi ficando irritada, achando que os garçons estavam fazendo pouco caso e fez questão que o marido  chamasse o gerente para  reclamar.

Quando o gerente chegou todo solícito e ouviu a reclamação, explicou que eles não tinham aberto o sinal verde na mesa parra que os garçons começassem a servir.

O gerente tentou amenizar a situação dizendo que é comum as pessoas se distraírem e se esquecerem de abrir o sinal verde, mas a tragédia já tinha acontecido.

Todas as colegas riram da estória e uma delas saiu com uma explicação bem simplória: - Isto é normal, todos sabemos que "Herrar é Umano"!

 

A experiência

Fui num restaurante chic, famoso pela vista panorâmica, e pela cozinha pilotada há mais de 10 anos por um chef famoso.

Comida maravilhosa servida por garçons precisos, atentos e ágeis, à luz de velas e ao som de música italiana ao piano.

O que me chamou a atenção foi a pergunta que o garçom me fez:- como foi a experiência? , então fiquei imaginando de onde ele tirou isso, teria sido orientação do chef famoso ou seria do professor da escola de hotelaria de alto nível?, afinal todos garçons ali não aprenderam no trabalho, nem na experiência, são exímios profissionais.

Na verdade não fui fazer experiência, fui almoçar, e fiquei tentando encontrar um significado para esse termo "experiência", então lembrei da música "Triste Partida" de Luiz Gonzaga, onde ele fala que o nordestino fez experiência nas pedras de sal, onde no dia 12 de dezembro ele deixa as pedras de sal expostas ao ar livre e no dia 13 de dezembro, dia de Santa Luzia, vai ver se elas escorreram água e se grudaram, e caso tenham se grudado, será um ano bom de chuva. Aí sim é uma experiência, então eu não fui fazer experiência, eu fui almoçar num restaurante chic.

Talvez seja para dar ênfase à ideia, da mesma forma que no McDonald's nos perguntam que bebida queremos tomar, ao invés de perguntarem que refrigerante queremos, e depois nos desejam uma boa refeição, sendo que o lanche é gostoso, mas é uma péssima refeição.

Mas ficou essa grande dúvida que terei que esclarecer, e não existe outra forma de fazer, então terei que ir novamente no restaurante chic!

 

domingo, 14 de novembro de 2021

Alma Índia

Quem gaba a loca é o sapo e quem gaba o toco é a coruja.

A alma índia pulsa mais forte, e mesmo morando numa metrópole, sua mente vive nas matas, faz os chás de ervas, rala a mandioca e come o peixe frito.

Farofa de farinha de milho e carne seca é o manjar dos deuses e num pequeno terreno planta as ervas que seus ancestrais usavam para fazer curas.

Sonha em um dia ter uma propriedade com muitas árvores e um córrego bem chorão, onde os peixes nadam e os pássaros vão beber água.

Gosta de ser chamada por um nome europeu: "Francesca", mas a alma índia gosta de contemplar a lua cheia em dias quentes e ver o sol se esconder no horizonte como seus antepassados faziam na floresta.

Bebe muita água, entorna a garrafa pet na boca e dá longos goles, e na mente segura uma cabaça e gosta de ouvir o barulho dela se esvaziando enquanto sacia a sede, é a índia na mata sentindo a brisa no rosto.

Nestes dias sua família vai se reunir para uma festa, é como se fosse um Kuarup com muita alegria, muita comida e muitas risadas. Não vai ter corrida de toras e nem lutas de corpo a corpo, mas as lembranças de causos passados vão trazer muitas risadas.

A índia é feliz, vive feliz e cultiva também as amizades, sabe que um dia vai morar no céu no meio das estrelas, mas também sabe que continuará ouvindo os grilos e vendo o pisca-pisca dos vagalumes no meio da floresta.

sábado, 23 de outubro de 2021

23 de Outubro

Gente! hoje é meu aniversário e completo 66 anos.

66 é meia meia, um belo número, nem imagino  que bicho seria no jogo do bicho, mas minha geração que curtiu um fusquinha sabe que o meia meia é um número emblemático e até hoje é um sonho para aficionados e colecionadores.

Tive vários fusquinhas, mas o que tive muito mais foram as havaianas. Acredito que ganhei o primeiro par com quatro ou cinco anos e foi comprado em Jales, depois que minha mãe viu um vizinho japonês usando e achou muito legal.

Nunca fiquei sem havaianas, fui crescendo, estudando, trabalhando, me casei e nunca deixei de usar as havaianas.  As havaianas me acompanham nos meus momentos mais íntimos, até no banho quando estou totalmente nu estou usando as havaianas.

Tive várias cores e ultimamente até modelos mais arrojados, mas sempre havaianas.  Nunca consertei as tiras com arame como muita gente faz, acho que é uma coisa tão barata que quando solta as tiras é melhor comprar um par novo.

Na festa do meu casamento não demos havaianas para os convidados como muita gente faz porque não fizemos festa, mas na minha lua de mel junto da noiva levei as havaianas.

Quando eu for embora deste mundo não faço questão de roupas especiais, mas quero levar minhas havaianas, mas deixo claro que não tenho pressa, tomara que demore mais 66 anos.

Na minha lápide podem gravar: "Aqui jaz José com suas havaianas, não por serem as sandálias da humildade, mas por serem as sandálias da utilidade".

Quem ler esta crônica não pode falar que nunca  teve um par de havaianas!, ninguém!. Aliás, quem nunca apanhou da mãe com uma havaiana?

Tive vários fusquinhas, mas havaianas tive muitas, muitas mais, e isto não é ostentação, porque havaianas é igual nariz: todo mundo tem!

domingo, 3 de outubro de 2021

O mundo é dos vivos

Assistindo ao Jornal Nacional vi um caso de um homem que levando sua mãe à agencia bancária para fazer prova de vida, para fins previdenciários, tropeçou na calçada e batendo a cabeça na guia morreu no mesmo instante. Ironicamente tentando provar a vida de sua mãe, não conseguiu preservar a sua própria vida.

Fui dormir com isso na cabeça, e em sonho me preocupei em fazer minha própria prova de vida, sendo que num ano que esqueci de fazer deixei de receber o benefício, e só fui receber depois de regularizar a situação junto a previdência.

Levantei cedo e com isso na cabeça peguei o celular e vi a chegada de um e-mail da prefeitura, e logo percebi que era uma brincadeira que fazíamos nos tempos da juventude, alguém me mandou este e-mail se passando pela prefeitura e dizendo que eu tinha passado da idade que não mais traria vantagens à sociedade e aos amigos, só acarretando prejuízo as entidades assistenciais e desagrado aos que me rodeiam, portanto eu deveria comparecer ao crematório municipal diante do forno número 5 para que fosse incinerado.

Tudo estava muito funesto nas últimas horas, só se falava em morte, Deus me livre!

Antes de entrar na agência bancária, passei na banca de jornal para comprar uma revista de palavras cruzadas, e o jornaleiro que não conheço exclamou:- Tudo bem? quem é vivo sempre aparece!

Olhei assustado para aquele homem que não conhecia e o achei muito parecido com um colega de trabalho que tinha morrido há uns dez anos, chamado Alfredo, acho que até dilatei os olhos assustado, e fiquei mudo sem responder até que chegou uma cliente e pediu a revista Caras, exclamando que só pagaria a conta na semana que vem e perguntou se estava tudo bem frisando o nome de "seu Alfredo".

Muito estranho tudo isso, lembrei de um filme que assisti quando rapaz que um personagem descia de avião numa ilha e reconheceu diversas pessoas que já tinha morrido, o que o levou a concluir que ele estava morto também.

Entrei na agência bancária e fui pedir informações a um funcionário que manipulava o caixa eletrônico, disse bom dia sendo que ele simplesmente não respondeu me ignorando totalmente, esperei até que ele terminasse seu trabalho e virasse para sair quando ele se assustou com minha presença mostrando que só tinha me percebido aquela hora.  Muito estranho, resolvi não perguntar nada, fui no caixa e realizei a prova de vida e sai da agência.

Atravessando a rua um motorista incauto fez a curva cantando os pneus me assustando e gritando:-cuidado tio! quer morrer?, e eu ignorei mas minha vontade era dizer para ele que eu não queria morrer, mas pelo jeito ele queria era me matar.

Andando pela calçada cruzei com um rapaz que distribuía panfletos que eu imaginava ser de algum empreendimento imobiliário, peguei um na mão somente para ajuda-lo em seu serviço e me assustei com o conteúdo que era de vendas de túmulos e jazigos.

Praguejei com a quantidade de coincidências infelizes e um senhor que andava perto veio puxar conversa sobre os panfletos, então contei para ele tudo que tinha ocorrido desde o Jornal Nacional, e ele me disse para não me preocupar, porque infelizmente pessoas tropeçam todos os dias e as vezes com consequências graves, sonhar com um problema também é normal porque ficamos remoendo os problemas durante o sono, sobre o e-mail da prefeitura é normal nós humanos fazermos brincadeiras para nos divertir, quanto ao senhor Alfredo posso dizer que o conheço há anos e ele sempre teve a mesma cara, já foi mais agradável verdade, o rapaz do banco é o Flávio, que faz parte dos contratados com deficiência, ele é surdo, por isso não te ouviu, motoristas incautos tem em todas as ruas de São Paulo, às vezes alcoolizados ou drogados, e finalmente com relação ao rapaz dos panfletos, entenda que é o trabalho dele, igual a todos que vendem produtos, e hoje te afirmo que não ligo mais para essas coisas, mas quando eu era vivo também tinha muita rejeição!