sexta-feira, 20 de setembro de 2019

E Agora José (15)

O homem retarda, porém a lei o impulsiona

Muitas vezes na vida empurrei para frente algum problema para resolver depois, e quanto mais eu empurrava maior ficava este problema, parecendo um bicho de sete cabeças, então quando eu me via obrigado a enfrentá-lo via que não era tão difícil. Na vida material percebi que tudo se transforma, as pirâmides do Egito sofrem mutação devido as condições do tempo, se desgastam, se destroem, nada é eterno, até meu próprio corpo se renova, morrem células e nascem novas células, e do meu corpo de vinte anos atrás, pouca coisa tenho hoje.  A evolução espiritual também é assim, não posso estacionar, não posso regredir, só posso ir para frente me desenvolvendo sempre.  Ideias que eu tinha há anos atrás mudaram, a evolução espiritual e a maturidade me fizeram ver a vida por outro ângulo, e me fizeram mudar e sei que vou continuar mudando sempre.
É interessante que sempre que vejo uma foto antiga minha ou de outra pessoa, sempre estamos mais feios, e hoje apesar de estarmos mais velhos, estamos mais bonitos, mas a beleza que enxergo é a evolução espiritual.  Conforme amadureço, mesmo estando mais velho, me sinto mais feliz, mais realizado, e sei que isso é reflexo do meu espírito em evolução, e mesmo sabendo que tenho uma longa estrada pela frente, provavelmente muitas e muitas reencarnações, estou feliz porque sei que não tem como estacionar, estou sempre caminhando.

E Agora José (14)

O arrependimento é o primeiro passo para o pagamento das nossas dívidas

Eu posso pagar minhas dívidas de várias formas, posso reparar  meus erros pedindo perdão para quem magoei ou ofendi, prestar algum serviço para alguém como forma de me redimir do meu erro, e reparar meu erro se for possível ainda a reparação.
Mas para isso eu tenho que me arrepender, e para me arrepender, tenho que reconhecer onde errei, tenho que ter consciência que o que fiz foi errado, tenho que ter entendimento que o que fiz não foi correto e causei mal para alguém. Sei que quando me arrependo e reconheço meu erro, Deus em sua imensa bondade perdoa, mas não posso esquecer que a partir do momento que tenho consciência do que é um erro, eu não posso mais repeti-lo. Também tenho que saber que o que é erro para  os outros pode não ser para mim, por exemplo, algumas vezes sou obrigado a desagradar algum subordinado com um não, ele se sente magoado, ofendido, mas eu sei que aquela minha atitude foi a melhor para ele.  As vezes eu como pai tenho que ser duro com minhas filhas, deixá-las chateadas, magoadas, mas sei que estou fazendo o melhor para elas.  Então eu sei que tenho que tomar atitudes com  consciência, com honestidade, com justiça, e quando eu errar, tenho que reconhecer onde errei, porque errei, e não cometer mais esse erro, então tenho que me arrepender e eu sei que minha consciência perdoa e Deus também.

quinta-feira, 19 de setembro de 2019

E Agora José? (13)

O mundo desengana e justifica o pessimismo de muitos mas esse julgamento é uma visão imperfeita

Nesta vida passo por situações que não aceito, e não entendo porque tais coisas acontecem e a reação automática é me revoltar, não acreditar em Deus e achar que não vale a pena ser correto e honesto.  As vezes vejo pessoas que agem incorretamente estarem vivendo uma situação aparentemente melhor que a minha, e ai concluo que vale mais a lei do mais forte, de quem não mede consequências em písar nos próprios semelhantes para atingir seus objetivos na vida. A  medida que vou conhecendo os ensinamentos espíritas, cristãos, passo a ver a vida por outra lente e enxergar as coisas de uma forma diferente. Passo a compreender porque certas coisas acontecem e se não as entendo, pelo menos sei que aquilo tem algum motivo para acontecer. Sei que são consequências de atitudes minhas em outras vidas e nesta vida atual pedi para passar por isso para reparar meus erros e aprender algo. Mas além do conhecimento destes fatos, também tenho que ter fé e confiar inteiramente que existe um Deus que é pura bondade e amor, e nunca permitiria nada que me pudesse fazer mal. Pode até parecer que é para meu mal, mas é para meu bem!

domingo, 8 de setembro de 2019

E Agora José ? (12)

O sofrimento é um recurso do próprio espírito para evoluir
Quando nos encarnamos, sabemos que aqui viemos para aprimoramento do espírito, portanto é normal passarmos por sofrimentos para deles tirarmos um aprendizado e evoluirmos.
Acontecem situações e fatos que não compreendemos, e nos revoltamos, protestamos e quando conseguimos aceita-los nos resignamos e aprendemos alguma coisa pela dor e pelo sofrimento.
Estando mais preparados e tendo o pequeno conhecimento espírita que temos, muitas vezes também não entendemos o que esta acontecendo e fatos nos surpreendem a cada momento, mas ai não nos resignamos, e sim aceitamos sem revolta, sem protesto, sabendo que aquilo é necessário para nosso aprimoramento. Então cada tropeço é a certeza de desenvolvimento espiritual. O que as vezes nos fazia praguejar, agora engolimos e tentamos procurar o significado já sabendo que aquilo tem um significado.  Uma coisa é certa, de braços cruzados olhando para o horizonte nunca aprenderemos nada, na própria vida escolar é assim, começamos com 4 anos e estudamos até a faculdade, e em alguns casos, pós graduação, doutorado e especializações. Muito esforço, muita luta para o aprendizado e o aprendizado espiritual também á assim.  Sem esforço e sem sofrimento não conseguiremos a evolução.

E Agora José ? (11)

As dores sangram no corpo, mas acendem luzes na alma
Desde os cinco anos de idade acostumei ver meu pai alcoolizado, e minha mãe brigando com ele por causa disso, e só quem passou por isso sabe a insegurança que esta situação nos traz, fora a vergonha, o sofrimento.  Por outro lado isso me trouxe maturidade e acredito que me fez evoluir, crescer e aceitar as adversidades da vida.
E vejo que na vida é sempre assim, só o sofrimento e a dor nos fazem crescer, vemos países que passaram por guerras e destruição atingirem um grau de desenvolvimento surpreendente. Só quem faz a caminhada cansativa montanha acima pode sentir o sabor da conquista de ver a paisagem lá de cima. Na minha vida, quantas vezes no fim do dia deitei na cama e imaginei que poucas pessoas tinham uma cama tão gostosa como a minha, tão reconfortante!, mas sinto isso depois de uma jornada de trabalho de mais de 12 horas quase sempre de pé. Para que haja a evolução é necessário o sacrifício, a dor, e é necessário que passemos por isso para refletirmos, nos aprimorarmos e nos iluminarmos. Dando um exemplo meio materialista, na idade que estou, ainda tenho uma carga horária de trabalho muito longa, e consequentemente consigo realizar alguns sonhos, como poder comprar um carro novo, e minha satisfação de realização é tão grande, que de ansiedade perco o sono a noite. O trabalho é a dor, e perder o sono como uma criança feliz é iluminar a alma.

segunda-feira, 26 de agosto de 2019

Reminiscências

Entrei no quintal da tia Neuraci, era assim que eu chamava uma amiga da minha mãe, e a encontrei limpando um bumbo de lata, um brinquedo cobiçado naquela época, somente mais tarde fui descobrir que era meu presente de aniversário.  Eu morava em Santa Albertina, interior de São Paulo e deveria estar fazendo uns quatro ou cinco anos, a cidade não tinha asfalto em nenhuma rua e em frente a sorveteria muitos palitos de picolé se misturavam à terra fofa.  Eu morava na rua principal, próximo da sorveteria, e nos fundos da minha casa ficava o  hospital do Dr. Joaquim, e me recordo de entrar lá duas vezes, uma vez para ver pela janelinha de vidro alguém conhecido que estava sendo operado das amígdalas ou da apêndice, não sei mesmo, e outra vez com algumas pessoas que estavam tirando do forro ninhos de pombas para fazer criação e para evitar barulho e praguinhas no hospital.  O Dr. Joaquim gostava muito de animais, uma vez trouxe um cateto, uma espécie de porco selvagem, e outra trouxe uma arara que conseguiu desfolhar uma árvore todinha.
Estávamos mais ou menos no ano de 1960 e como toda criança do interior aproveitava a chuva para brincar na enxurrada, e uma vez com a mão melada de doce de leite que minha mãe tinha feito com leite condensado, para rechear um bolo, peguei um filhote de pardal que caiu do ninho, até hoje lembro do mal cheiro que sentia nas mãos, e por falar em doce de leite, tinha uma vizinha nossa que fazia doce de leite num tacho para vender, e quando estava pronto pediu para eu buscar uma xícara em casa para ela me dar um pouco, e minha mãe na inocência me deu uma xícara sem asa.  Bastou eu pegar a xícara com doce quente que tive de largar, e a prova disso é que tenho uma cicatriz no pé até hoje, aliás no corredor que isso aconteceu, uma vez também eu estava brigando com um menino da minha idade, e quando eu ia andando de costas pisei numa garrafa quebrada, foi muito sangue, e eu e o menino fizemos as pazes na hora.
Meu pai fez para mim um carrinho de madeira com duas rodas puxado por uma varal, era minha diversão e eu vivia procurando uma forquilha perfeita para fazer um estilingue, e as vezes alguma novidade me chamava a atenção, por exemplo uns garotos que vinham da beira do rio Grande com um carrocinha puxada por cabras.  No rio Grande as vezes íamos e usávamos a praia duma ilha, que só dava para chegar de bote, e eu ouvia estórias de pessoas que por farra roubavam e afogavam porcos criados na ilha para comer.  Eram tempos tranquilos, os engraxates, na maioria moleques, arrumavam caixas de papelão e levavam na alfaiataria, os alfaiates usavam o papelão para abanar o ferro de passar roupa à carvão, e pagavam os moleques com tiras de tecido que eles usavam para dar lustro nos sapatos, naquela época era lustro, não brilho!
De vez em quando meu pai matava um porco, não da ilha lógico, e fazia morcelas e farinheiras, e a festa era grande, que para provar o tempero da farinheira, eles faziam a ferriada, uma espécie de panqueca com a massa. Tudo isso era perto do limoeiro de limão galego, tenho boas recordações quando meu pai trouxe uma cesta de vime de algum lugar, e eu a enchia de limões e saia para vender nos bares, sempre voltava com uns trocados no bolso. Meu  pai gostava de caçar, e para isso comprou uma charrete com um cavalo, então saíamos pelas estradas, uma vez ele matou uns pombos e alguém veio reclamar que era dono, ele mais que depressa pediu desculpas e pagou as aves abatidas, me recordo também do cheiro da madeira serrada na serraria, o cheiro, o barulho das máquinas e o cantar dos canarinhos em meio aquele barulho, o dono da serraria tinha muitas gaiolas penduradas no teto.
Os vizinho do outro lado da casa sempre montava um presépio no natal, e isso enchia meus olhos, principalmente o lago feito com um pedaço de espelho enterrado na areia do chão do presépio, areia tirada de um monte na calçada, e eu na inocência escondi uma bola de plástico na areia da calçada e nunca mais consegui encontra-la, provavelmente alguém a pegou.
Só fiz o primeiro ano primário na escola de Santa Albertina, e quando comecei a professora era uma substituta, da qual me afeiçoei, mas quando a professora efetiva voltou da licença, não tive dúvidas, fui chorando para casa.  Posteriormente essa mesma professora me elogiou por eu pronunciar os esses e erres direitinho.  Um dia na hora do recreio comprei um copo de leite, mas como o leite era muito quente e não amornaram como minha mãe fazia, queimei a língua e nunca mais quis. A cidade era animada, um vendedor ambulante, não sei porque até hoje acho que era turco, cortava o dedo com um canivete para mostrar como se usava o mercurocromo, um anti-séptico de uso tópico. Nas rádios tocava a música "Cincas do Passado", composição de Claudio Barros, (ouçam no google), e na quermesse da  igreja, no jogo que o coelho entra na casinha, eu ganhei um papagaio de gesso, então meus pais falaram que eu tinha muita sorte, e isso foi muito marcante, me influenciou a vida toda.  Uma prenda também muito usada no leilão era uma pomba dentro de uma caixa de sapatos, com um furo na tampa que permitia ela ficar com a cabeça para fora.
No caminho de Santa Albertina para Jales tinha o córrego das Araras, e um dia nós paramos para nos refrescar e eu sentado na água com minha irmã que era menor que eu, ela tombou e caiu e eu a levantei, salvei sua vida.  As vezes eu ia no sitio de uns compadres dos meus pais, e tinha de atravessar um brejo, com água correndo, lambaris e muitos pássaros cantando, acho que é por isso que eu gosto tanto de brejo e batizei minha chácara de "Brejo dos Cataventos", e saibam, lá no fundo da chácara tem um brejinho.  Nesse sitio tinha uma frondosa mangueira e na época da safra ficava muito carregada. Meu colega filho dos compadres dos meus pais falou para eu pegar mangas à vontade, mas não era para deixar seu avô ver porque ele ficaria bravo.  Seu avô ficava o dia todo sentado na varanda, já não andava mais. Recentemente perguntei para minha mãe qual era o problema de saúde dele, e ela respondeu que era igual ao dela, só que naquela época não se colocava prótese no joelho, e a nora dele reclamava que à noite ele não conseguia dormir e ficava batendo os dedos na cama, então como a casa era sem forro, ninguém dormia. Esse colega meu guardava embaixo da cama uma caixa de sapato com dinheiro do leite que vendia para futuramente comprar um violão, não lembro se comprou ou não.  Minha mãe fazia curau de milho do milho verde que ganhava de seus compadres, e quando oferecia para meu colega, percebia sua gulodice e estranhava porque o milho vinha da propriedade deles, demorou para minha mãe descobrir que não faziam o curau porque tinham que economizar o açúcar. E quando chegava o fim de ano, todos queriam o almanaque que a farmácia distribuía, com diversas curiosidades, horóscopo, simpatias  e propaganda de remédios, acho que quem imprimia os almanaques eram os laboratórios.
O primeiro álbum de figurinhas que tive foi "A Bela Adormecida", ainda visualizo os cromos e sinto o cheiro da tinta da impressão, todos trocavam figurinhas e disputavam as mais difíceis, eram crianças e adultos, viver é sonhar!  Quando ganhei um par de sapatos novos, não tive dúvidas, dormi com eles nos pés, ainda sinto-os no pés! A imagem é muito nítida.
Uns vizinhos japoneses apareceram de havaianas, adorei, e minha mãe compru um par para mim em Jales, e alguém deles cantava: "japoname, japoquite, Japocairú, dontoname, dontoquite, dontocairú", não sei o que isso significava.  Em Santa Albertina pedi para minha mãe um cigarro pela primeira vez na vida, nem ela fumava e nem meu pai, então ela mandou eu atravessar a rua e pedir um para um amigo português, aquele que eles se juntavam a noite para tomar vinho e comer azeitonas, assim me lembro de fumar, na verdade assoprar um cigarro em frente ao Banco Bamerindus, por isso acho que o vício do cigarro é um vício do espírito, não do corpo, e com certeza eu trazia esse vício de outra vida. O português  criava um porco no quintal, como todo mundo no interior fazia, e a lata da lavagem, que são os restos de comida, com seu cheiro azedo me é familiar e traz boas recordações.
Lembro com saudades do piso da varanda, de um tijolo branco quadrado, grande e poroso, que quando era lavado ficava muito fresco, e quando minha mãe passava a roupa eu perguntava se ela estava ferrando a roupa, e quando a luz acendia eu falava que lampiou.
Na véspera do natal, meu pai foi comigo no mato para cortar capim para as renas do papai noel. No dia de natal, ele levantou cedinho, recolheu os capins e colocou no lugar cocô de cabrito. Era prova de que papai noel tinha passado. Minha emoção foi muito grande, e não me lembro que presente ganhei naquele ano, mas nunca esqueci a brincadeira.
Um dia fui com minha mãe no açougue comprar carne, e o açougueiro sugeriu que minha mãe levasse costela de porco, e disse que era porque eu gostava muito, achei interessante, talvez eu nunca tivesse  tido consciência disso, mas é coisa certa, gosto mesmo!
Certa feita eu estava deitado no batente da porta da cozinha, quando uma mulher que veio do rio Grande e queira falar com minha mãe, deu um passo largo por cima sem pedir para eu sair. Eu na inocência de criança depois falei para minha mãe que a mulher estava sem calcinha, na verdade eu simplesmente não vi a calcinha. Criança não tem maldade mesmo, hoje me vejo como o personagem Zezé do livro "O meu pé de laranja lima", que para agradar seu pai cantou um verso de um  tango: "Eu quero uma mulher bem nua/Bem nua eu a quero ter.../De noite no clarão da lua/ eu quero o  corpo da mulher...",minha mãe não me bateu como o pai de Zezé, só achou minha observação engraçada.  Eu não tinha consciência também que tinha tantas lembranças dessa fase de minha vida, uma fase de um ano até os seis anos, não lembro de antes, nasci em Santa Rita D'oeste onde meu pai tinha uma venda na frente de casa, e quando nasci era feio e enrugado, mas mesmo assim meu pai me levou para os fregueses verem e então ganhei muitas galinhas, acho que é esse o motivo de eu ser apaixonado por essas aves domésticas.
Que Deus me dê forças para que eu continue sempre sendo uma criança, que perde o sono de emoção toda vez que compra um carro novo ou uma moto nova, e sempre saiba alimentar a esperança de uma vida cada vez mais feliz.

             "Nada posso fazer: Parece que há em mim um lado infantil que não cresce jamais"
                                                               Clarice Lispector

sábado, 27 de julho de 2019

Navegar é Preciso

Entramos no velho mundo por Lisboa, cidade menina, moça e mulher, cidade com vestígios de ocupação humana pelos neandertais extintos há cerca de 30.000 anos, foi visitada pelos fenícios em 1.200 a.C. e habitada pelos romanos, germanos e árabes, e somente em 1.147 o 1º rei de Portugal D. Afonso Henriques conquistou Lisboa expandindo-a para fora das muralhas.
Visitamos o Castelo de São Jorge construído para defender a cidade de invasões romanas, o Mosteiro dos Jeronimos de belíssima arquitetura e peças de museu valiosíssimas, o Arco da Rua Augusta construído para celebrar a reconstrução da cidade após o terremoto de 1.755 usando o ouro explorado no Brasil.  No "Metro", como eles chamam o Metrô, fiquei espantado de comprarmos o bilhete na máquina eletrônica e para embarcarmos foi necessário encostar o bilhete num totem que faz a leitura e descer as escadas para embarcar sem passar em catraca nenhuma e sem fiscalização alguma, onde uma pessoa de má fé poderia viajar sem pagar nada, mas cultura é cultura!, e para não descermos em estação errada ficávamos atentos na "Próxima Paragem" como era anunciado no alto-falante do "Metro". Fomos nas tabernas ouvir o fado saboreando o delicioso bacalhau e tomando vinho; Lisboa é uma cidade encantadora, com sua arquitetura, suas ladeiras, suas tabernas, seus bondinhos, realmente é sensual e pode ser chamada de cidade menina, moça e mulher. É bom lembrar o último verso da música de Carlos do Carmo:
Lisboa no meu amor, deitada
Cidade por minhas mãos despida
Lisboa menina e moça, amada
Cidade mulher da minha vida
Visitamos a Torre de Belém construída no estuário do Rio Tejo, para defender a entrada de invasores em Lisboa. Em Belém saboreamos o tradicional Pastel de Belém, criado neste local, mas em outras cidades é chamado de Pastel de Nata, se você pedir um Pastel de Belém em outra cidade eles te corrigem!
Alugamos um Suv da Fiat, 1.3, diesel, cambio mecânico e o retiramos no aeroporto, onde uma placa dizia: "Levantamento de Viaturas", e indo para o norte fomos em Estoril, com casas muito lindas e ricas e uma praia muito pobre em relação as brasileiras, mas sabemos que as praias boas de Portugal estão em Algarves, onde não fomos, e logo após fomos em Cascais, uma praia mais bonita porém as águas estavam geladas para nossos padrões, apesar de vermos muitas excursões de escola com crianças a partir de 3 anos, brincando e se divertindo na água.
Indo para Sintra, passamos pelo pedágio, mas como tinha instalado um sem parar no carro, sempre tinha de utilizar a passagem escrita "Reservada a Aderentes" e nas mudanças de estradas passávamos pelas "Rotundas" que no Brasil chamamos de rotatórias.
Como minha filha Adriana fez nosso roteiro de viagem e as reservas das casas e apartamentos, ficou a cargo da outra filha, a Mariana, ser minha co-pilota, usando o Waze e o Google Maps e me indicando as direções a seguir, e tenho que registrar que em nenhum momento  nos perdemos.
Uma coisa muito comum em Portugal, são os varais de roupa do lado de fora das janelas dos apartamentos, então é comum vermos calcinhas expostas para quem passa na rua, mas não vemos fraldas secando, Portugal tem a quarta menor taxa de natalidade da Europa, portanto é raro vermos "bebés" como chamam os bebês lá.
Fomos visitar o Palácio Nacional da Pena, uma das principais expressões do romantismo arquitetônico do século XIX, e o Castelo dos Mouros construído nos séculos VIII e IX e me chamou a atenção a Porta da Traição, que é aquela passagem secreta que usavam para entrar ou sair do castelo em segredo, para fugir ou para entregar alguma mensagem. Mas o que mais gostei mesmo em Sintra, foi a Quinta da Regaleira, chácara no centro da cidade, com um belo palácio, uma lindíssima capela e com muita água correndo nas fontes e dois poços com escadarias ao lado, sendo que em um deles, o Iniciático, de 27 metros de profundidade, e com uma rosa dos ventos no chão, era usado para iniciações maçônicas ou rosacruzes, além de uma infinidade de túneis que ligam várias construções da quinta. Uma ´placa em Sintra me chamou a atenção "Estacionamento de Ligeiros Sujeito a Cobrança", sendo que Ligeiros são os carros pequenos.
Seguindo para o norte, chegamos em Óbidos, cidade medieval tomada dos mouros em 1.148 por D. Afonso Henriques, onde nos deliciamos com a famosa ginjinha, que provavelmente nasceu na Asia Menor, mas graças ao microclima de Óbidos encontrou a melhor qualidade em Portugal, além dos queijos de ovelha e cabra.
No  restaurante, quando terminamos o almoço, a garçonete perguntou;- "Posso levantar os pratos", e não víamos a hora de tomarmos a ginja. De Óbidos fomos para Fátima, bonito complexo regilioso no local onde os pastores Lucia, Francisco e Jacinta viram N.S. de Fátima, local de peregrinação de devotos do mundo todo, e próximo do local das aparições, uma placa comemorativa de 100 anos da aparição de N.S. de Fátima em Portugal, e 300 anos de devoção à N.S. Aparecida no Brasil.
E nós vamos subindo para nosso próximo destino, Batalha, cidade fundada por D. João I, juntamente com o mosteiro de Santa Maria da Vitória, em agradecimento ao auxilio divino pela vitória na batalha de Aljubarrota em 1.385. Em Batalha tivemos uma experiência engraçada, pegamos um taxi com um motorista de idade para irmos a um restaurante, e quando a Adriana perguntou se teria taxis na rua mais tarde quando voltaríamos, ele rudemente disse que não, então ela perguntou como poderia fazer, e ele rudemente respondeu que tinha que telefonar. No restaurante depois de comermos um delicioso leitão, a Adriana pediu para a gerente se poderia pedir um taxi, e ela em alguns minutos depois disse que não tinha mais, mas que ficássemos tranquilos que ela iria resolver o problema. Um garçom nos levou ao hotel com o carro da gerente. Lindo mosteiro, e como nosso apartamento ficava em frente, dormimos ouvindo cantos gregorianos de um evento que estava acontecendo naquele dia.
No dia seguinte, deixando a praça de Batalha com seus "chapéus de sol", que são guarda-sóis, partimos para Aveiro, a Veneza portuguesa, uma cidade com 41 km de canais que eram usados como estradas pelos barcos para transporte de mercadorias, e agora só são usados para transporte de turistas. Comemos peixe, o garçom trouxe uma bandeja de peixe crus  para nos mostrar, e nos confessou sua alegria de ver brasileiros, ele era carioca e vendeu seu restaurante no Rio de Janeiro por ter sido assaltado 15 vezes e agora morava num lugar seguro.  Passeamos de barco moliceiro, andamos pelo canais da cidade, e durante o passeio nossa guia debochava do capitão do barco e ele respondia a mesma altura os impropérios, tudo naturalmente combinado para divertir os turistas, e essa guia chama os canais de "Ria" por se tratar das águas do estuário do rio Vouga.
Agora era chegada a hora de irmos para a cidade do Porto, a cidade onde o centro mais se parece com São Paulo, e em algum lugar vi uma "Lomba redutora de velocidade", nome dado ao quebra-molas em Portugal.
No apartamento do Porto constatei que em Portugal todas as tomadas do banheiro, que é chamado de "Casa de Banho", ficam do lado de fora, então você imagina estar tomando banho e alguém de brincadeira ou sem querer apagar a luz, realmente não consegui entender esta lógica.
Na rua vi uma placa que dizia: "Pedir Uber só com Aplicação", e no Brasil usamos o termo "aplicativo". Numa praça resolvemos tomar um café, num barzinho com mesas também do lado de fora, de duas proprietárias de meia idade, gordinhas aparentando um casal. Quando a Mariana perguntou se elas só tinham café expresso, uma logo respondeu:- você entra aqui e não sabes o que queres?, quando minha filha explicou que queria um café preto e grande, então ela serviu. Nesse momento entra no bar um senhor aparentemente amigo delas, e vendo a mesa úmida, pediu um pano para seca-la. Uma delas pegou o pano e foi na mesa e secou-a, em seguida servindo uma xicara de leite para o senhor, e quando foi indagado se queria um pouco de café no leite, como ele negou então ela disse:-foda-se!
Andamos no funicular para descer à beira do rio Douro e andamos no teleférico para subir da cota baixa para a cota alta da Vila Nova de Gaia, visitamos as lojas que vendem vinho do Porto, e assistimos um show de musicas tradicionais ao ar livre. Visitamos a livraria Lelo, frequentada por J.K.Rowling escritora dos livros Harry Potter, onde ela disse ter se inspirado, que para entrar paga-se 5 euros que é dado como voucher, portanto para não perder esse dinheiro tive que gastar mais 3 euros e comprar um livro de Fernando Pessoa.
No porto a Adriana nos reservou uma surpresa, logo de manhã, depois do café, que em Portugal chamam de "Pequeno Almoço", uma van veio nos buscar para um passeio, iriamos primeiro na cidade de Peso-da-régua e depois na cidade de Pinho, ambas muito importantes no escoamento de vinho que se destina à cidade do Porto. Vimos os vinhedos na montanha, de uma beleza impressionante, se existe outras reencarnações, e eu acredito nisso, com certeza um dia vivi ali, tudo me era muito familiar e só de olhar as ruas das videiras me senti cansado.
Subimos o Douro no barco, o mesmo que antigamente era usado para o transporte das barricas de vinho, e depois fomos visitar a vinícola D'origem em Casal de Loivos, e vimos o museu com o equipamento de produção de uva e azeite, perguntei ao proprietário se ainda alguém pisava as uvas com os pés, e ele disse que sim, e afirmou que há quem diga que o vinho fique mais saboroso. Andando pelas estradas, nosso guia, Miguel, mostrou uma van e disse que aquela "carrinha" era da sua "equipa " também. Comentei que no Brasil chamávamos de Van, não de "carrinha", e "equipa" chamávamos de equipe. Então como vimos um caminhão ele perguntou se no Brasil também chamávamos de "Camião'. Falei que sim, e só posteriormente quando via um acidente noticiado na televisão, o locutor dizia que o transito estava condicionado pois um "camião" despistou-se em Condeixa-a-Nova, percebi que eles omitem as letras "nh". Miguel já esteve no Brasil, e adorou nossas comidas, disse que não entende porque em Portugal tem açai e não tem tapioca. Fomos na cidade de Sabrosa, onde tivemos um maravilhoso almoço com peixe regado a vinho embaixo de uma nogueira gigante, e depois degustamos vinho do Porto de 10, 20 e 30 anos. Quem quisesse o de 100 anos teria que pagar a parte, não tive esse capricho.
De volta ao Porto, na televisão vi uma noticia sobre a previdência social de Portugal, onde os usuários são chamados de "Utentes". Portugal é um país preparado para o turismo, em todas as casas e apartamentos que ficamos, os proprietários tinham mapas da região para nos mostrar e todos tinham extintor de incêndio, estojo de primeiros socorros e abafa chamas, percebi que era um padrão e que todos tinham recebido orientações para atender turistas.
Da cidade do Porto fomos para Coimbra, cidade famosa pela Universidade de Coimbra, uma das mais antigas do mundo, fundada no ano de 1.290, cuja escadaria tem 125 degraus, eu contei e confirmei no google. Fomos também numa Associação Cultural chamada "Fado Hilário", que defende om patrimônio musical de Coimbra, tendo sido Augusto Hilário da Costa Alves o primeiro  fadista português, e uma coisa que me chamou atenção é que até hoje o fado de Coimbra só é cantado por homens, com trajes acadêmicos, calças e batina pretas e também uma capa de lã preta.
Agora nosso destino me deixou tenso, emocionado, iriamos conhecer a aldeias do meu pai e da minha mãe. A aldeia do meu pai chamada Maxieira tem algumas casas boas mas para pedir informação é difícil encontrar alguém na rua. Perguntei para um senhor onde era a casa de minha tia Maria de Jesus, e para justificar minha pergunta falei que era sobrinho dela, filho de Manoel Hilário. O pobre do homem ficou emocionado, disse que era do ano do meu pai, e mesmo no Brasil eles trocavam correspondência. Já na aldeia de minha mãe, a Pracana Fundeira, com pouquíssimas casas em praticamente duas ruas, sendo que em uma das ruas as casas de pedra todas em ruina, da uma certa tristeza. Mas finalmente realizei esse desejo antigo de conhecer as aldeias do meu pai e da minha mãe, o que  também agradou muito minhas filhas e minha esposa que sendo baiana, tem raízes portuguesas. Fomos almoçar em Proença-a-Nova, onde comemos uma deliciosa costela de porco defumada e próximo do restaurante reparei numa placa que dizia "Gabinete de Beleza" e naturalmente é o que chamamos de Salão de Beleza"
Voltamos para Lisboa, estava chegando a triste hora de irmos embora, então fomos jantar no Laurentina, o rei do bacalhau, aliás em Portugal, economizamos muito não ficando em hotéis, usando casas ou apartamentos,  e investimos em alimentação, saboreando bacalhau, leitão, morcela, alheira, bolinho de bacalhau e bolinho de alheira, além do deliciosos pães com queijos de cabra, ovelha e misto, além do presunto cru português e naturalmente pastéis de Belém com ginjinha.
E quando embarcamos num voo da Tap e nos despedimos da comilança, a aeromoça perguntou se eu queria frango ou bacalhau, escolhi bacalhau apesar de saber que comida de avião ser mais um alimento do que uma iguaria, me surpreendi, e saboreei um delicioso  bacalhau em iscas, com pedacinhos de batata, espinafre e creme de leite, fechamos a viagem com chave de ouro.
Foi uma viagem maravilhosa, e termino esta crônica lembrando as palavras do Fellipe, amigo da Adriana, "Existe uma vida mais barata, mas não presta!"